Una lettera dal Brasile di Frei Betto agli elettori cristiani in vista del ballottaggio del 29 ottobre. Dal nostro girocorrispondente Giuseppe "Pippo" Pisano.
Domenica prossima, il Brasile eleggerà il nuovo presidente della Repubblica nel secondo turno tra Lula e lo sfidante Geraldo Alckmin. Secondo gli ultimi sondaggi, la vittoria di Lula sembra scontata ma il recupero di Alckmin negli ultimi giorni di campagna per il primo turno, che ha costretto Lula ad un inaspettato ballottaggio, consigliano un minimo di prudenza.
Nella Lettera Aperta agli elettori cristiani che pubblichiamo, Frei Betto dichiara apertamente il suo voto per Lula e invita gli elettori cristiani a votarlo.
Non è un invito scontato da parte del teologo e giornalista, uno degli intellettuali progressisti più riconosciuti in America Latina, amico personale del presidente.
All’inizio del 2004, a metà del primo mandato del presidente Lula, Frei Betto abbandonò polemicamente il posto di coordinatore del programma governativo Fame Zero. In seguito il governo Lula e alcuni dei suoi più stretti collaboratori è stato fatto segno di pesanti accuse di corruzione ed è stato costretto sulla difensiva proprio su temi come l’etica e la trasparenza che erano state le bandiere di Lula e di tutto il Partido dos Trabalhadores (PT) negli ultimi vent’anni anni di democrazia brasiliana. E allora perché votare ancora per Lula? Perché rinnovargli la fiducia per altri quattro anni?
Frei Betto lo spiega con la chiarezza che gli è propria: la vittoria di Alckmin sarebbe un grave arretramento, significherebbe il ritorno al potere delle élites delle privatizzazioni selvagge, delle politiche sociali assistenzialiste. Le élites che hanno sempre trattato le rivendicazioni dei lavoratori rurali, delle popolazioni indigene, dei neri, delle donne brasiliane come una questione di ordine pubblico. La politica di Lula negli ultimi quattro anni, pur con tanti limiti ed eccessiva prudenza, ha cambiato questa prospettiva di governo, ha bloccato il progetto di zona di libero scambio continentale voluto fortemente dagli Stati Uniti, ha rafforzato il Mercosur, ha condannato fermamente l’invasione dell’Irak.
Non è poco ma, come conclude Frei Betto, Lula deve ancora molto al Brasile e ai brasiliani.
CARTA ABERTA AOS ELEITORES CRISTÃOS
Frei Betto
A 29 de outubro escolheremos quem governará o Brasil nos próximos 4 anos:
Lula ou Alckmin. Os dois são cristãos. Os dois nunca deram mostras de
tendência fundamentalista, a de querer submeter a política à autoridade de
uma Igreja ou religião.
A política é laica, ou seja, neutra em matéria de religião. Ela visa ao
conjunto da população, sem levar em conta as convicções religiosas do
cidadão ou cidadã. A todos o governo tem a obrigação de servir,
assegurando-lhes direitos, proteção e o mínimo de bens para que possam
viver com dignidade.
Se nenhuma religião tem o direito de tutelar a política, isso não
significa que a política deva se confinar no pragmatismo do jogo de poder.
A política se apóia em valores éticos. E nós, cristãos, temos como fonte
de valores a Palavra de Jesus. É à luz do Evangelho que avaliamos todas as
esferas da atividade humana, inclusive a política que é a mais
importante delas, pois influi em todas as outras.
Para Jesus, o dom maior de Deus é a vida. Está mais próxima do Evangelho a
política que favorece condições dignas de vida à maioria da população. É
neste ponto que as políticas do PSDB e do PT ganham contornos diferentes.
Os dois partidos tiveram desvios éticos? Sem dúvida. Como ironiza Jesus,
atire a primeira pedra quem não tem pecadoS Errar é humano. Persistir no
erro é abominável. Se um membro da família erra, não se pode condenar por
isso toda a família. O grave é quando a família toda abraça o caminho do
erro.
Este foi o caso do PSDB, partido de Alckmin, nos 8 anos em que FHC
(Fernando Henrique Cardoso) governou o Brasil (1994-2002). Empresas
públicas foram privatizadas. Grandes empresas brasileiras Vale do Rio
Doce, Embratel, Telebrás, Usiminas etc - patrimônios do povo brasileiro,
cujos lucros engordavam os cofres do Estado, foram vendidas a preço de
banana, e os lucros passaram a ser embolsados por corporações privadas,
muitas delas estrangeiras.
Lula não privatizou o patrimônio público. Eleger Alckmin pode ser o
primeiro passo para a privatização da Petrobras, do Banco do Brasil, da
Caixa Econômica Federal e dos Correios.
No governo FHC, as políticas sociais eram tímidas e assistencialistas. O
Comunidade Solidária era uma iniciativa nanica comparada à grandiosidade
do Bolsa Família, que hoje distribui renda para mais de 40 milhões de
pessoas. Graças a isso, de cada 100 brasileiros que viviam na miséria, nos
últimos 4 anos 19 passaram à classe média.
No governo Lula houve, sim, desvios éticos: o caso Waldomiro Diniz; o
"mensalão" e os "sanguessugas"; a quebra do sigilo bancário do caseiro de
Brasília; o dossiê contra Serra. Não há nenhuma prova de que o presidente
soubesse antecipadamente dessas operações inescrupulosas. E ao virem a
público, ele tratou de demitir os envolvidos.
No governo FHC, dinheiro público foi usado para tentar socorrer bancos
privados: o Proer. O Banco Econômico recebeu R$ 9,6 bilhões. Instalou-se
uma CPI que, controlada pelo Planalto, justificou a maracutaia e nunca
investigou a Pasta Rosa que continha os nomes de 25 deputados federais
subornados pelo Econômico.
Houve ainda os casos dos precatórios; da compra de votos para aprovar a
emenda constitucional que permitiu a reeleição de FHC; do socorro aos
bancos Marka e FonteCidam no valor de R$ 1,6 bilhão (os tucanos impediram
a instalação da CPI para investigar o caso); as falcatruas na Sudam etc.
Nada foi apurado, porque o Procurador-Geral da República, Geraldo
Brindeiro, conhecido como "engavetador-geral", engavetou, até maio de
2001, 242 processos contra o governo e arquivou outros 217, livrando os
suspeitos de qualquer investigação: 194 deputados federais, 33 senadores,
11 ministros e ex-ministros, e o próprio presidente da República.
O governo FHC tratou os movimentos populares como caso de polícia, e não
de política. Remeteu o Exército para reprimir o MST e os petroleiros em
greve. Lula jamais criminalizou movimentos sociais e, sob o seu governo, a
Polícia Federal levou à prisão gente graúda, dos donos de uma grande
cervejaria a juízes, e inclusive petistas envolvidos no caso do dossiê
anti-Serra.
O governo Lula reforçou a soberania do Brasil. Repudiou a Alca proposta
pelo governo Bush; condenou a invasão do Iraque; visitou a cada ano países
da África; abriu as portas de nossas universidades a negros e indígenas;
estendeu energia elétrica aos mais distantes rincões; manteve a inflação
sob controle; impediu a alta do dólar; reduziu os preços dos gêneros de
primeira necessidade; ampliou o poder aquisitivo dos mais pobres, através
do aumento do salário mínimo.
Lula ainda nos deve muito do que prometeu ao longo de suas campanhas
presidenciais, como a reforma agrária. Porém, o Brasil e a América Latina
serão melhores com ele do que sem ele. Se você está convencido disso,
trate de convencer também outros eleitores.
Vamos votar na vida e "vida para todos" (João 10,10). Vamos reeleger
Lula presidente!
Frei Betto é frade dominicano e escritor, autor de 53 livros, e assessor
de movimentos sociais.